domingo, 30 de dezembro de 2007

O filme

"Patton" era o nome da película. Retratava a vida do general que se distinguiu ao ponto de impressionar a 7ª Arte; há quem diga que não passa de propaganda política... É um épico com esse grande actor que foi George C. Scott.

O mês era Novembro, num daqueles anos em que o clima ainda não descarregava a sua raiva no planeta como protesto pelos maus tratos infligidos pelo Homem e como era de esperar na altura, chovia frequentemente e a temperatura "convidava" a um bom agasalho acompanhado por um par de luvas.

A seu lado, na montra, parado, sem dizer palavra, estava uma figura conhecida das noites do Porto, um sem-abrigo que andava com um carrinho cheio de guarda-chuvas! A barba grisalha raiada pelo rasto de nicotina que o cigarro provoca, estava em desalinho como que combinando com o resto. Não fosse o pormenor da colecção de "chuços" (como se diz guarda-chuva por lá) e seria apenas mais um falhado da vida, um ser invisível que só aos gatos despertava atenção nas sombrias ruas da cidade.

O jovem era estudante, vindo de Angola depois de ter conseguido uma bolsa de estudos para estudar na Universidade do Porto. No coração convivia um misto de tristeza e de alegria: a família ficara para trás, mas a guerra também! Com apenas 17 anos mudara de país, de continente, de cultura, de clima e a adaptação não estava a ser fácil, apesar de já contar com dois anos de estadia. O quarto alugado era o seu mundo, o seu refúgio, mas rapidamente aprendera que na mente de quem acolhe estudantes a troco de dinheiro, hospitalidade colide com conforto e para além dos banhos controlados, possuir televisão e aquecimento era um luxo excluído do arrendamento clandestino. A senhoria também era arrendatária e pagava menos de metade pelo apartamento do que cobrava pelo quarto...

Abrigados pela cobertura da loja de electrodomésticos, ali se mantinham os dois, silenciosos, de pé, mergulhando naquela realidade diferente da sua, que lhes chegava pela televisão da montra.
O filme terminou. O jovem acabaria por ligar para a mãe de uma cabine telefónica a caminho de casa. Era quase meia-noite.
A princípio as chamadas eram constantes, mas o passar dos anos e o pouco dinheiro foram desvanecendo a regularidade dos contactos. Nessa noite contara à mãe as novidades das últimas três semanas e entusiasmado, falara no filme que vira na montra. Anos mais tarde percebeu que os percalços que foram moldando a sua personalidade, amachucaram o coração daquela mãe que não raras vezes, preocupada, levantava-se de madrugada para pensar no filho ausente.

Amor de mãe é assim, silencioso; sensibilidade de mãe é assim, elevada.
Amor de filho faz da dura realidade uma brincadeira e torna-se omisso, reservado, para não magoar quem se quer bem.
Sem partilhar a dor, sofrer sozinho é muitas vezes o preço que se paga para não magoar quem se ama.

2 comentários:

Márcio Branco disse...

Bem verdade....
Por vezes aquilo que não se diz é bem mais esclarecedor do que mil palavras e muitas vezes ambos os interlocutores omitem coisas, que no fundo cada um deles sabe bem o que se passa mas omite-se porque verbalizar custa mais. Assim fica o implicito, poderá ser mas também poderá não ser, vamos fingir que não é verdade, é apenas cansaço ou mal disposição do momento.
Mas assim se cresce e se aprende, porque através dos silencios conseguimos ouvir toda uma vida.

Bruma disse...

E é um preço elevado. Embora nos seja difícil aceitar isso, quem nos ama quer que tudo seja dividido - mesmo o sofrimento. Talvez assim a dor possa ser amenizada, e já não nos sentimos tão sozinhos.