sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A multa

O polícia vestido de camisa azul bebé suada e calça azul marinho cumprimentou-o com um caloroso bom dia, que contrastou em brilho com o embaciado das suas botas da tropa cobertas de poeira vermelha! Respondeu-lhe, enfeitando a frase, com um cordial, mas falso sorriso daqueles que se usa para tirar uma fotografia tipo passe.

Tinha sido mandado encostar e como qualquer um pensou que entre tantos veículos, que entupiam diariamente as ruas da barulhenta cidade a rebentar pelas costuras, tinha tido a grande "sorte" de ser logo ele o escolhido. Atento, em silêncio, manteve-se pacientemente à espera que o "agente da autoridade" desse a volta à carrinha, tão devagar que parecia em câmara lenta. Agarrava-se à certeza e à convicção de que tinha tudo em ordem, como quem se prende com todas as forças aos destroços de uma porta depois de um naufrágio. Até tinha um triângulo novo comprado no último semáforo da Avenida Marginal a um daqueles "armazéns ambulantes" que são os miúdos de rua, garotos na idade e adultos na experiência daquela vida crua e implacável de cidade para onde fugiram da guerra, das minas, da orfandade, da fome, do ingresso forçado no exército...

Era o segundo triângulo em três semanas e aprendera que em caso de avaria ou de um furo, como fora o seu caso, esse acessório deverá ficar dentro da viatura sob pena de ficar sem ele. Os locais, com quem aprendia coisas a cada dia, assinalavam o perigo com um jante velha, um ramo de árvore ou um monte de pedras; coisas da luta pela sobrevivência e do desenrascanço que tão bem conhecia, ainda que a níveis mais modestos. Àquele povo, o que faltava em condições de vida sobrava em imaginação! Em três meses de estadia naquela sedutora terra tão estranha nos costumes e tão familiar no seu imaginário, muitas tinham sido as surpresas. Seu pai alimentara com histórias daquela terra toda a sua infância e juventude, não poupando elogios às imensas riquezas, ao clima, às potencialidades de um futuro que finalmente se transformara no seu presente, desde que decidira abraçá-la como sua.

A voz simpática que lhe tinha oferecido o cumprimento mudara de tom e resgatou-o de todos aqueles pensamentos. Duas voltas em dois minutos de inspecção à viatura e de exame à documentação, traziam de volta aqueles olhos fixos num rosto indiferenciado, debaixo daquele chapéu branco, que ostentava o símbolo da força de autoridade que representava. Ouviu dizer estupefacto que iria ser multado e teria de ir à esquadra levantar os documentos. Razão da multa: falta de placa identificadora no tablier (como é mesmo em português?) onde constasse o nome e a morada do proprietário da viatura!

Sabia o que implicava ter de ficar sem os documentos, tinha sido avisado! A hipótese mais comum era jamais vê-los e ter de pagar (e muito) para tratar de outros. Os polícias (diziam eles) usavam esse expediente para compor o magro salário, mas toda a gente sabia que era mais falta de formação, princípios, ética, do que pão. Ganhando 500, 600, 700, 1000, não se perdem os vícios da profissão! Afinal, que quantia é suficientemente grande para se deixar de utilizar o poder da profissão em benefício próprio?

Olhava em volta de olhos esbugalhados. O parque automóvel misturava autênticos atentados à saúde pública e verdadeiros transmissores de tétano, tal era a ferrugem de certas carroçarias, com grandes jipes novinhos em folha, luxuosas berlindas, carros desportivos quase todos de vidros fumados para afastar o sol implacável e os olhares indiscretos. A "sua" carrinha, disponibilizada pela empresa, que também lhe garantira o alojamento não era um chaço, mas também não dava nas vistas. Não haveria piores do que ele? Multado por falta de placa identificadora quando eram incontáveis os carros(?) sem faróis, sem panela de escape, com jantes e pneus de vários tipos montados no mesmo veículo, com cordas a servirem de fechaduras, com excesso de carga e de ocupantes?.. Só podia ser piada!

Retorquiu que não poderia ficar sem documentos, que todos os dias precisava de conduzir entre as várias obras que a empresa de construção mantinha nos arredores e centro da cidade, envelhecida e muito maltratada, por causa da guerra e agora totalmente esventrada como se quisesse recuperar em alguns anos o tempo perdido ao longo de décadas.

"Está nas suas mãos!" foi a frase que por diversas vezes ouviu daquele agente que aparentava cerca de 50 anos. Alto e magro, de corpo bem definido, parecia que a sua estatura ia diminuindo conforme ia perdendo a dignidade profissional. Deixara de ser simpático e ignorava-o. Mantinha-o ali parado a ver o tempo passar enquanto abordava outros condutores e tentava encontrar nas respectivas viaturas alguma desculpa para a "oferta" de uma multa.

A empresa incluía no seu salário um suplemento para a chamada "gasosa", o processo de se livrar da multa e de encher o bolso do seu detentor; antes deixar ali umas notas do que atrasar-se nas responsabilidades atribuídas e perder-se em esgrima moral com alguém que mais parecia uma parece de um castelo impermeável a argumentos de carácter deontológico e conceitos de honestidade. Sabia o que fazer, o que significava aquele "está nas suas mãos", mas era contra os seus princípios!

Arrancou a toda a velocidade, libertando para trás uma nuvem de poeira que no tom se confundia com o vermelho da sua irritação. O derrapar dos pneus era o seu grito de liberdade e de revolta. Deixara o seu extorquidor a tossir e a respirar argila em pó! Era essa a sua consolação! Mais tarde em conversa com um conterrâneo, colega e amigo, chegado há mais tempo percebera o seu erro: conduzia com o cinto de segurança, o que para a polícia era sinal de caloiro, de recém-chegado, de estrangeiro habituado a conduzir em terra de trânsito organizado, ora pela direita, ora pela esquerda, muito diferente daquele salve-se quem puder e quero posso e meto-me à frente onde se circula pelo meio, por onde há espaço, sem civismo, sem educação, como se na estrada se vivesse com saudade dos tempos da guerra entre irmãos, que tantas vidas ceifou, tantas famílias separou e tanta destruição deixou!...

Um comentário:

alguém disse...

Olá!
Obrigada pelos parabéns. Vim até aqui num pulo para conhecer o teu canto, mas tenho mesmo de vir com mais tempo.
Bom fim-de-semana