terça-feira, 15 de julho de 2008

15 de Julho

Passaram três anos! Passarão muitos mais, mas parecerá sempre que foi ontem, há pouco!

Aquele passeio nocturno, que acabaria em assalto, não mais sairá da memória!

Mais do que descrever como é que dois minutos de tensão provocada por armas apontadas à nossa integridade física e ordens disparadas contra a nossa dignidade alteram o futuro de alguém, seria preciso perceber a que temperatura corre o sangue e a que velocidade circulam os princípios de quem por trás de uma máscara troca a paz da harmonia de quem ameaça pela sua inqualificável ambição ou desmesurado desespero.

Um carro valerá assim tanto e a nossa vida tão pouco?

Que percurso faz quem com duas décadas e pouco mais de vida compra um arma, percorre a cidade e contando com o efeito surpresa, a superioridade numérica do seu grupo e a ameaça real de várias armas afronta um desconhecido para o empobrecer materialmente e esvaziar espiritualmente?

Três anos passaram! A resignação desvaneceu os porquês de ser vítima; o esquecimento foi espaçando os pesadelos que se vão esvaindo das noites mal dormidas; foi regressando a harmonia que se acomoda na rotina do dia-a-dia, mas ficou o medo, que nos momentos de maior solidão sai da letargia da hibernação para tudo relembrar, de mão dada com a sombra do luar, cada vez que a escura noite cobre o radioso dia .

Saídas nocturnas em busca de paz, apenas as necessárias; a inocência está enterrada, mas não defunta; o fatalismo paira, mas não domina; a angústia pelo sofrimento imobiliza quando se ausenta quem se ama... E assim, aos poucos, vai-se recuperando.

A ti, que há três anos, três meses, três dias, que há muito ou pouco tempo, que sem desejares, quase ficavas pobre de vida e rico de balas, dedico estas linhas...

Esquece o que te levaram e preserva o que te deixaram. Venceste! sobreviveste! Afinal foi uma boa troca porque jamais carro algum terá o valor do que não tem preço!

Durante muito tempo o teu olhar alguma coisa dirá a quem te observar, mas o que mais se ouvirá será esse grito silencioso que ecoa nas entranhas, angustia o pensamento e acelera o coração cada vez que voltares a ouvir falar num novo caso; dá tempo e conseguirás fazer da tua experiência apenas uma história distante e não uma realidade do passado, tão próxima quanto por ora presente na tua mente.

Não estás só na experiência, mas estarás sempre sozinho em tudo o que esses breves momentos de terror subtraíram ou acrescentaram à tua existência!

2 comentários:

RESSACA disse...

Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão.

xana disse...

desculpe,importa-se de repetir?