sexta-feira, 16 de novembro de 2007

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Hoje à tarde agradeci a um condutor a ultrapassagem na auto-estrada. A monotonia de uma viagem quase diária, que se torna enfadonha por ser repetitiva é tanta, que até parece que se conduz com o piloto automático. Fica-se a conhecer cada recta do percurso e sabe-se qual a velocidade máxima em cada curva; o tempo passa devagar, os pensamentos voam baixinho e tornamo-nos numa máquina pois os actos são puramente mecânicos.

Bem, mas o assunto é outro! O carro que me ultrapassou era funerário e atrás seguiam à mesma velocidade mais alguns aceleras. Um cortejo fúnebre em plena A3! Questionei-me sobre a velocidade, que era bem superior aos 110km/h em que rodava, pois nem deu para ver a matrícula! Depois de morto não se tem pressa, a não ser que se acredite em reencarnação e se conte regressar para cá logo de seguida ou se tenha a certeza de que o céu é o destino e se esteja mortinho por lá chegar. De qualquer forma teriam de ter ficado instruções em vida no sentido de quem ficasse, tratasse do processo de forma célere. Por momentos fiquei deprimido: se até pelos mortos sou ultrapassado, que miserável e desgraçada deve ser a minha vida!

Voltando à realidade científica dos factos (sem desprimor e ofensa para com os crentes) concluí que a pressa só poderia ser da funerária ou de quem a contratou. Os serviços fúnebres são um negócio (como outro qualquer) e têm o lucro como fim último, mas prestando um serviço nobre, delicado e de relevante importância social, talvez continuasse a ser necessária a observação de uma ética e de uma deontologia profissionais rigorosas e não ofensivas à dignidade de quem parte e de quem (quase sempre contrariado) vê partir.

Já lá vai o tempo em que não só as figuras públicas e de estado mobilizavam as pessoas num lento cortejo a pé ou motorizado onde assim se manifestava o pesar e a dificuldade em ver alguém afastar-se para a "outra margem". A lentidão e a demora da procissão estavam imbuídas da vã tentativa de atrasar ao máximo o inevitável, ritualizando-a. Como se perdeu isso? Até na hora da morte andamos stressados numa correria louca como se o que interessasse fosse chegar ao fim tão depressa quanto possível?!

Ao ser ultrapassado assim, ainda pensei que o cemitério pudesse estar quase a fechar, que os integrantes tivessem de ir trabalhar, que estivesse quase a chover, mas se foi algum destes casos é triste que já nem se espere por um defunto, não se prescinda de umas horas da nossa vida profissional para homenagear um falecido com a nossa presença ou não se aguente uma intempérie numa circunstância tão emotiva.

Quando morrer, tal como alguém disse, eu quererei ser "cromado"; as cinzas deverão ser espalhadas no ar a partir de um carro em movimento acelerado na auto-estrada, ser quase trespassadas por raios de sol e reflectir por segundos o brilho que animou este olhar neste breve minuto de vida que é a nossa existência. Assim poderei fazer companhia e dizer aos que como o de hoje circularem por lá, que não tenham receio: quando chegarem ao destino, por muita que seja a velocidade com que os despachem, terão direito a um eterno e merecido descanso!

3 comentários:

Anônimo disse...

Será que o morto já cheirava ??
Estaria mesmo morto ???
A carga não seria outra ???
Estaria atrasado para a entrada nas grandes portas ???
É preciso ter muito cuidado com a morte ...

Márcio Branco disse...

Também pretendo ser cremado, mas até nisso tenho gostos caros!!! Então não é que a cremação é bem mais cara que um enterro dito normal??!!! Só a renda durante toda a eternidade do espaço no cemitério deveria ser uma despesa enorme, mas parece que não, ser cremado fica mais caro!!!
Seja essa a minha vontade, pelo menos a ultima :-)

Anônimo disse...

Ainda bem que a morte passou por ti com pressa! Imagina que parava!? Deixá-la ir...